Palestra sobre A natureza do homem e da comunicação abre os encontros do TEMACOG

Texto e fotos: Roberto Bueno Mendes

 

O grupo de pesquisa Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva (TECCCOG) realizou o seu primeiro encontro temático – TEMACOG, com a palestra “A busca pela natureza da comunicação”, do pesquisador Diego Franco Gonçales. O evento aconteceu no Ed. Capa, Campus Rudge Ramos, da Universidade Metodista de São Paulo, na terça-feira, dia 10 de setembro.

O pesquisador baseou a sua palestra em três artigos. O principal texto utilizado era “Comunicação e natureza humana: argumentos a favor de uma atualização epistemológica” cuja autoria é dele, datado de 2012. O segundo foi “Intersecções possíveis: tecnologia, comunicação e ciência cognitiva”, de Walter Teixeira Lima.  O texto “Entendendo a compreensão verbal”, de Dan Sperber, completou a leitura.

As diferentes relações entre as teorias sobre a natureza humana e as teorias de comunicação e como estas podem estar defasadas ao se basearem em estágios anteriores das teorias sobre a natureza humana, foram temas tratados por Diego. Ele descreveu inicialmente principais linhas de estudo da natureza humana, criticando às teorias behavioristas que ainda influenciam os estudos sobre comportamento humano. 

Também explicou as principais linhas de pesquisa da Comunicação e como elas são influenciadas por àquelas anteriores, sinalizando como elas se relacionam atualmente e como as ciências cognitivas, possibilitando a melhoria  e o aprofundamento dos estudos sobre a natureza humana e da natureza da comunicação.

“Um bicho programado para ser flexível”

Baseando-se numa foto de um bebê inuíte e na crença errada de que este povo tem mais de 400 palavras apenas para dizer neve, Gonçales  mencionou as ideias de filósofos como John Locke e Jean-Jacques Rousseau, indicando que o homem é moldado pelo meio em que vive.  “Isso, hoje, faz parte do nosso lugar comum. A ideia de que a cultura é infinitamente variável e a aprendizagem é infinitamente aquisitiva é chamada, por parte da Ciência Social, de modelo clássico das Ciências Sociais e ele contaminou o senso comum”, afirma.

Para Diego os paradigmas das teorias de comunicação, citadas em seu artigo, teriam como base epistemológica, ou seja, como pilares da sua própria construção, esse modelo clássico. “Todas essas teorias estão imbuídas da ideia do ser humano exclusivamente cultural… ainda que hoje em dia seja difícil alguém defender o papel exclusivo da cultura sem dizer que os genes tenham algum papel também no comportamento humano”, explicando que na visão do Modelo Clássico das Ciências Sociais a hereditariedade e o ambiente causam comportamentos, o que resulta no que somos. Porém, o Modelo não explica como isso ocorre.

Gonçales comentou a seguir sobre os paradigmas dentro dos quais ele classificou as teorias existentes atualmente na área: crítico-funcionalista e estético-informacional. Iniciou pelo paradigma crítico-funcionalista, dando como exemplo uma análise de capa da revista Veja apresentada em um congresso nacional de comunicação , na qual a conclusão seria que o veículo semanal, numa sutil alusão ao Partido dos Trabalhadores (PT), ao realçar uma estrela vermelha, estaria mascarando os seus instintos malvados e elitistas e ainda formando a cabeça dos leitores a odiar o partido.“A conclusão de que seria uma sutil ilusão ao PT esconde que o que está por trás daí é a ideia do ser humano como tábula rasa. Não há nem um reflexo crítico de se pensar se isso está autorizado a se pensar dessa maneira?”, comentou ele sobre o exemplo. 

Dentro do paradigma estético-informacional, ele citou os estudos de Semiótica. Diego citou qual é a caricatura dos semióticos: a dos estudiosos de azulejo, já que para eles tudo é linguagem. A semiótica, ele explicou que dá uma contribuição importante aos estudos de comunicação, mas seria mais uma camada de interpretação. “Já há aquela que é dada pelos próprios signos, há aquela que alguém não-semiótico faz e aquela que o semiólogo faz e aí vai se juntando uma a uma”, disse.

“Percebe-se nesses paradigmas pouco poder explicativo”, afirma Diego. “Nós temos um belo poder exploratório, a gente tem um poder descritivo, usam-se teorias arrojadas para se explicar uma capa da Veja, mas explicar de fato o processo comunicacional tem pouquíssimo poder. Decorre daí que a natureza da comunicação que eu estou em busca, é o meu projeto de pesquisa, é um mistério”, afirma.

Mistério este no sentido que Noam Chomsky dá a palavra, segundo Gonçales. “Problemas científicos, por mais complicados que eles pareçam, eles ainda são passíveis de explicação, um mistério, a gente não sabe nem como começar a pensar a respeito deles. A natureza da comunicação, nesses paradigmas, é um mistério”, completou o pesquisador.

Após a sua explicação sobre a sedução do modelo clássico das Ciências Sociais, Diego explicou o porquê ele é falso. “Hoje nós temos um sistema, ainda simplista, mas ainda mais arrojado”, afirmou ele. Citando o texto do professor Walter Teixeira Lima, Gonçales disse que as Ciências Cognitivas, uma área interdisciplinar da ciência, “possui várias frentes para explicar, no final de contas, o que a mente, como ela funciona e por que a gente se comporta da maneira que se comporta”, completou.

Baseado na filosofia da mente, que embasa as ideias de cientistas como Steven Pinker, Daniel Denett e outros, Diego explicou que “das Ciências Cognitivas, o que eu extraio, é uma frase que pode ser meio paradoxal: a gente é um bicho que foi programado para ser flexível. Se é que a gente pode colocar na mesma frase programável e flexível”.

Ainda tentando explicar para a audiência como se pode estudar o comportamento humano, como ele surgee com isso a natureza da comunicação, citou o terceiro texto, o de Dan Sperber. Para Sperber a ideia de codificação e decodificação é “inadequada”, por não levar em conta a biologia e isso seria um reducionismo. Antes de fazer essa afirmação, Diego explicou o que seria o reducionismo, ou reducionismo ganancioso, através de Denett. “Para o reducionismo ganancioso, uma ciência poderia morrer agora, porque todos os seus fenômenos, na verdade, poderiam ser explicados pelo sistema da outra sem prejuízo nenhum”, disse Diego.

Para ele, Sperber propõe a Comunicação Inferencial, “não só a codificação e decodificação, como há o tal do contexto, que precisa ser inferido também.” E essa teoria, a Teoria de Relevância, seria uma das teorias de comunicação cognitivas, segundo o pesquisador. 

Sperber se basearia numa ideia básica da Ciência Cognitiva: a folk psychology. “A ideia de que nós temos, – inato , desde que nascemos -, a tendência a ficar imaginando o que você está imaginando.” E nós temos a capacidade de ter esse pensamento. Segundo, a capacidade de entendê-los estaria explicado, para o Diego, no conceito de Sistemas Intencionais, por Denett, nos anos 60, do século passado. E tudo isso estaria baseado na Teoria da Evolução. “Temos psicologia, filosofia e temos biologia. Mas não está reduzindo a Comunicação a uma coisa que não deveria, ou acabando com a Comunicação, já que ele [Sperber] nem fala de psicologia, ou de biologia, ou de filosofia, é um texto de Comunicação”, explica Diego.

Encerrando a sua fala, o pesquisador afirmou que “se queremos transcender o plano puramente descritivo dos fenômenos, ou seja, mais uma interpretação, em cima de interpretação, em cima de interpretação, não adianta mais uma teoria interpretativa, não adianta aplicar Foucault no Twitter, a gente precisa fazer epistemologia, precisamos parar e pensar sobre nossas teorias. Senão, vamos vai ficar só no plano descritivo e nunca vamos passar para o plano explicativo.”

Terminada sua fala, Franco respondeu a perguntas realizadas pelos integrantes do TECCCOG.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *